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Por: Aline Calisto e Gleibson Calisto[1]
Os fenômenos sociais, étnicos, econômicos, históricos, culturais, são destacados por alguns feminismos, que se constroem de modo a ampliar e colocar em questão aquilo que não foi levantado anteriormente. Temas como a imbricação entre sexo, classe e raça ligadas a formas de estruturação do poder passam a ser discutidos, com isso, é possível evidenciar a importância dos questionamentos acerca das relações de cuidado e a legitimidade de seu lugar como trabalho, além do olhar para a divisão sexual do trabalho e suas desigualdades.
A arte em geral, aqui em específico as telas de cinema podem e fazem pontes para as discussões e provocações a respeito do lugar que as mulheres, junto de seu contexto socioeconômico, racial e regional, ocupam nas relações.
A proposta desta discussão é refletir sobre levantamentos feitos por alguns feminismos a respeito do papel da mulher na relação do cuidado e a força do patriarcado na divisão sexual do trabalho. A arte, como base de reflexão, será utilizada a partir do filme brasileiro, Que Horas Ela Volta, escrito e dirigido por Anna Muvlaert[2], eleito em 2015 como melhor filme do ano, entrando na lista dos 100 melhores filmes brasileiros e um dos cinco melhores filmes estrangeiros do ano pela organização norte-americana, National Board of Review.
O filme é um drama interpretado por Regina Casé no papel da empregada doméstica Val, pernambucana, pobre, que precisou deixar sua filha sob os cuidados de outros familiares, indo morar em São Paulo no intuito de dar melhores condições de vida à filha Jéssica. Em São Paulo, é empregada e babá de uma família de classe média alta, e mora integralmente no emprego. Como babá dispensa todos seus cuidados e carinho ao menino Fabinho, filho único do casal de patrões. Após treze anos sem ver a filha, Jéssica muda-se para São Paulo para prestar vestibular, no mesmo momento em que Fabinho o faria, ela pede amparo de moradia a mãe que prontamente lhe recebe dentro de suas possibilidades, na casa dos patrões. Estes inicialmente se mostram dispostos a recebê-la, no entanto, logo fica claro que a recepção só permaneceria se a menina ocupasse apenas os espaços de invisibilidade, “da cozinha para trás”, o que não fez a garota, segundo palavras de Fabinho, Jéssica é: “Estranha né...sei lá... Muito confiante de si”. Jéssica coloca Val a repensar seu lugar como pessoa e perceber como vivia em uma relação utilitarista de exclusão e não pertencimento.
Trata-se de um filme denso, com cenas silenciosas e gritantes, enquadramentos fotográficos que destacam a exclusiva função do cuidado, arrumação, limpeza, servidão. A clara exposição das desigualdades dos lugares ocupados, o contraste da ampla casa com enorme jardim e piscina e o pequeno quarto de empregada sem ventilação, com janela para parede, uma pequena cama de solteiro e mobílias guardadas nas caixas compradas por Val para um dia montar sua própria casa. Cozinha e copa delimitadamente separadas por paredes e por pessoas, como dizia a personagem Val “Minha cozinha”, ocupando o grande salão da copa apenas para servir e retirar à mesa de acordo com o tempo e o desejo dos patrões.
De início o filme aponta sua provocação, destacando a não voz de Val. Por vezes a empregada tenta falar sobre algum assunto pessoal, de sua importância, com Bárbara e é claramente desconsiderada, ainda que forçosamente a patroa anuncie parcos agradecimentos e elogios a Val, nunca a escuta e considera de fato. Indigestas são determinadas cenas, como quando Val tenta falar com Bárbara, que faz sua corrida matinal na esteira, e é interrompida pela patroa que já havia dito o que queria, o que era para ela importante, ou quando a empregada carinhosamente lhe presenteia com um jogo de xícaras, pela passagem de seu aniversário e Bárbara lhe chama atenção por usar o conjunto na recepção da comemoração, fazendo-a trocar por xícaras importadas para não se envergonhar diante dos convidados.
Situações que são naturalmente questionadas e não aceitas por Jéssica, que ocupa seu lugar como pessoa, acredita em seu potencial intelectual, porém, ainda assim, precisa lidar com investidas sexuais abusivas do patrão José Carlos. Jéssica quebra paradigmas e tenta buscar mudanças para um cenário de vida que se aproximava ao da mãe, pois também precisou deixar seu pequeno filho no Nordeste aos cuidados de outras, para alcançar o objetivo de entrar na universidade, e conseguiu, diferente de Fabinho que não passou no vestibular, como solução os pais o enviam para o exterior, enquanto Val se liberta da relação de opressão que vivia como empregada doméstica e aluga uma casa para morar com Jéssica e o neto que será cuidado por Val.
Perspectivas de pensamentos feministas serão base para a construção da compreensão da trama citada. Heleieth Saffioti, socióloga, militante feminista brasileira, estuda e denuncia a dinâmica das relações sociais de gênero; o patriarcado como base para o capitalismo/produtivismo e sua ocupação na construção de poder e com isso a violência vivida pelas mulheres nesta sociedade.
De acordo com Saffioti (2009) o conceito de patriarcado tem politicamente a intenção de denunciar a dominação masculina e analisar as relações homem-mulher delas resultantes, mencionando a relação de exploração-dominação presente nesta dinâmica, a autora cita Juliet Mitchell feminista Marxista fazendo ressalva de que a liberação das mulheres somente aconteceria através de profunda mudança de todas as estruturas que elas participavam, provocando uma unidade de ruptura. Em interlocução com as cenas do filme, é possível perceber a força do patriarcado como forma de estruturação das relações, papeis de cuidado previamente definidos a mulher, pobre, nordestina, mãe solo, que busca a ocupação de um lugar no mundo.
Ainda nesta obra Saffioti se debruça a compreensão do patriarcado e lança mão do conceito definido por Bertaux entendendo este como um regime que possibilita aos homens assegurarem para si e seus dependentes, os meios necessários à produção da vida, no entanto, como destaca a autora, sem dúvida existe uma organização econômica doméstica que sustenta a ordem patriarcal. “Neste regime, as mulheres são objetos da satisfação sexual dos homens, reprodutoras de herdeiros, de força de trabalho e de novas reprodutoras” (SAFFIOTI, 2009), e assim a mulher é oprimida.
De acordo com esta perspectiva, sabe-se que a mulher ocupa lugar central no processo de sustentabilidade da vida para a continuidade da produção neoliberal, pois, sem seu papel de trabalhadora do cuidado, esta sociedade não se sustenta, portanto, a base do patriarcado é a divisão sexual do trabalho. Mafort e Julca (2020) apontam a importância da articulação entre classe, raça/etnia e gênero, pois, existe um processo de sobreposição de violências, opressões e dominações, com isso é possível compreender a condição de existência diferenciada dos sujeitos. As autoras fazem críticas em relação às poucas políticas criadas para as mulheres, e em sua maioria voltadas para a realidade urbana.
Ampliando esta discussão podemos considerar as desigualdades sociais nas diferentes regiões do país. No Brasil o maior polo de produção capitalista se concentra no sudeste, sendo relegada à pobreza, dificuldade de acesso ao ensino e ao trabalho as regiões norte e nordeste. As personagens nordestinas Val e Jéssica retratam esta realidade, quando precisam modificar toda sua vivência, sair de sua região, longe de seu povo e sua família, em busca de uma vida de oportunidades mínimas de acesso ao trabalho e a educação.
Guimarães e Hirata (2021), atentas às desigualdades sociais de gênero, raça e classe apontam para a evidência do trabalho do cuidado das mulheres e a articulação entre trabalho doméstico e trabalho formal, destacando o papel central que as mulheres ocupam no trabalho doméstico e do cuidado, atividades essenciais para a sociedade. Portanto, a divisão social do trabalho não pode ser pensada à margem da divisão sexual do trabalho. Como personagens principais do trabalho do cuidado, as mulheres ocupam, além do trabalho doméstico não remunerado, também trabalhos formais remunerados principalmente na esfera do cuidado, como care, empregada doméstica, enfermeiras e outros.
São realizadas por Federici (2010) análises a respeito dos estudos desenvolvidos por Michel Foucalt em relação ao disciplinamento dos corpos. Para esta autora o desenvolvimento capitalista foi possível por este processo de disciplinamento realizado por parte do Estado e da Igreja para transformar as potencias do indivíduo em força de trabalho. É importante considerar como aponta Federici (2013), que a mulher tem atuado como amortecedores da globalização econômica, já que ela compensa com seu trabalho a deterioração das condições econômicas produzidas pela liberalização da economia mundial, além da falta de investimento social pelos Estados.
Neste sentido, Val é a caricatura perfeita da mulher que ocupa o trabalho do cuidado, de forma remunerada e não remunerada. Como recém descoberta na condição de avó, incentiva a filha a trazer seu neto para São Paulo, abre mão de seu trabalho remunerado para “Eu dou meu jeito” – fala da personagem ao ser questionada pela filha quando pediu demissão. Cuidará do neto para que a filha tenha condições de seguir os estudos, papel não cumprido pelo Estado, com sucateamento de políticas públicas como creches e escolas públicas.
Federici (2013) discute de forma otimista quando descreve que o novo comportamento cultural da mulher vem em resposta e resistência contra a vida capitalista. A autora entende que “o reconhecimento do trabalho doméstico possibilita o entendimento de que o capitalismo se baseia na produção de um certo tipo de trabalhadores e, conseqüentemente, um certo modelo de família, sexualidade e procriação, que tem levado a redefinir a esfera privada como esfera das relações de produção e como terreno de lutas anticapitalistas” (FEDERECI, 2013 p. 161).
Além disso, na função de babá foi evidente a relação afetiva de Val com o garoto Fabinho, ocupando na verdade o lugar de mãe, aquela que acolhe, ampara, compreende e dialoga. Diferente de Bárbara, distante, austera e impositiva, queixa-se com o filho de que este não recebe seu abraço como faz com Val, no entanto, nunca oferece a mesma acolhida.
Guimarães e Hirata (2021) indagam como um misterioso “nó” o fato do trabalho doméstico e do cuidado ter um significativo caráter de valor afetivo, feito “por amor” e por isso obrigatório e inquestionável, o que dificulta a compreensão do trabalho doméstico como trabalho. O trabalho doméstico foi transformado em um atributo natural, como discute Federici (2013), reconhecido como destino feminino, não pode ser remunerado. No entanto, como podemos ver na trama, ainda que remunerado, o cuidado amoroso e afetuoso passam a ser compreendidos como uma função da babá, sua obrigação. A transformação do trabalho doméstico em um ato de amor apresenta vários benefícios para o capitalismo, como destaca Federici (2013), um deles é a garantia da mulher não se rebelar contra essa exploração, ela se desdobra a realizar diversas atividades de modo não remunerado, ou ainda que remunerado, sua função pode ser desvalorizada.
Portanto, a obra cinematográfica alcança objetivos a que ela se propõe, um deles é dialogar com a realidade e questionar os problemas e desigualdades advindos pelas relações de poder pautadas no sistema neoliberal vigente. As mulheres, os homens, a terra, os seres viventes urgem por socorro. Acreditamos que uma das formas de contribuição para mudanças é através da desconstrução de posicionamentos opressores, sendo este o intuito das reflexões apresentadas.
FEDERICI, Silvia. Revolución en Punto Cero: trabajo doméstico, reproducción y luchas feministas. 1. ed. Madrid: Traficantes de Sueños, 2013. 285 p. ISBN 978-84-96453-78-4. Disponível em: https://www.traficantes.net/sites/default/files/pdfs/Revolucion%20en%20punto%20cero-TdS.pdf. Acesso em: 7 set. 2021. Federici Silvia. (2010) Calibán y la bruja. Mujeres, cuerpo y acumulación originaria. Traficantes de Sueño. Madrid.
GUIMARÃES, Nadya Araújo; HIRATA, Helena Sumiko. O cuidado e as Crises. In: GUIMARÃES, Nadya Araújo; HIRATA, Helena Sumiko. O gênero do cuidado: Desigualdades, significações e identidades. 1. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2021. cap. 8, p. 243-258. E-book (30 p.).
MAFORT, Kelli; JULCA, Lisbet. Quem não se movimenta, não sente as correntes que a prendem. In: PAIM, Elisangela Saldateli. RESISTÊNCIAS E RE-EXISTÊNCIAS: Mulheres, território e meio ambiente em tempos de pandemia. 1. ed. São Paulo: Funilaria, 2020. cap. 4, p. 69-90. ISBN 978-65-993680-1-1. E-book (166 p.).
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Ontogênese e filogênese do gênero: ordem patriarcal de gênero e a violência masculina contra mulheres. Série Estudos e Ensaios/ Ciências Sociais/ FLACSO – Brasil – junho/2009. Disponível em:<http://www.flacso.org.br/portal/pdf/serie_estudos_ensaios/Heleieth_Saffioti.pdf> Acesso em 10 de novembro, 2018.
[1]Aline de Oliveira Calisto é graduada em Psicologia, especialista em Gestão em Saúde pela Universidade Federal de São João Del Rei, com formação na Abordagem Centrada na Pessoa pelo Centro de Psicologia Humanista de Minas Gerais. Atua como Psicóloga Clínica, experiência em Saúde Pública como servidora no Programa NASF.
Gleibson Carlos de Oliveira Calisto é graduado em Enfermagem, especialista em Urgência e Emergência e Terapia Intensiva pela Escola de Enfermagem Wenceslau Braz (2012), e em Saúde da Família pela Universidade Federal de Alfenas (2014). Atua como enfermeiro em UBS.
[2]O filme Que horas ela Volta foi escrito e dirigido por Anna Muvlaert, produzido no Brasil e lançado no início de 2015, a estreia aconteceu nos EUA, e somente posteriormente no Brasil em 27 de agosto de 2015. Como protagonistas atuam Regina Casé como a empregada doméstica Val, Camila Márdila é sua filha Jéssica, os patrões são Bárbara e José Carlos protagonizados respectivamente por Karine Teles e Lourenço Mutarelli, além de Michel Joelsas que incorpora Fabinho, o filho dos patrões.
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